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Projeto coordenado pelo prof. Marcio Tavares d'Amaral e vinculado ao IDEA - Programa de Estudos Avançados/ECO-UFRJ

Partido Socrático pela Verdade

O Brasil, que inventou a jabuticaba, criou também uma monstruosidade: partidos que não são feitos para representar

Publicado no jornal O Globo (19/08/2017)

A crise de representação que atinge os partidos e a democracia é um dos problemas mais assustadores do mundo hoje. Não é fenômeno só brasileiro. Trump se elegeu contra o Partido Republicano, que não o queria. Macron, na França, criou um movimento um ano antes das eleições e arrasou as formações políticas tradicionais. Num caso, o candidato desprezou seu partido, porque despreza partidos. No outro, percebeu que as estruturas tradicionais estavam no limite de validade, e veio à cena a partir da sociedade civil.

O caso brasileiro segue essa tendência geral. E a supera. O Brasil, que inventou a jabuticaba, dando mostras do seu engenho e arte, criou também essa coisa monstruosa: partidos que não são feitos para representar. São estritamente máquinas de poder, algumas extremamente ridículas. Não têm convicções, têm fome. Seus programas (são obrigados a registrá-los, burocraticamente, no TSE) são quase iguais, não os distinguem. Ainda há uns partidos, considerados de esquerda, com alguma representatividade. Quando no governo, caem para o centro, onde se equilibram porque o centro é a casa das conveniências. E há partidos mais ou menos de direita, cuja lógica é naturalmente a da conveniência, porque não são movidos por convicções, e fazem “o que dá”, porque “a política é a arte do possível”. Pobre possível. Já foi assunto importante para ninguém menos do que Aristóteles. Hoje é álibi para as políticas vagabundas. E há pequenos partidos lutando para existirem segundo uma ética da representação, que serão varridos pela cláusula de desempenho. Porque, quando a representatividade e a democracia estão esvaziadas, desempenho é número, não é convicção. Quem tem mais leva, e fica tendo mais porque levou. Quem tem menos não leva, fica fora, e fica ainda mais fora porque não leva. Que seus programas estejam à busca de expressar parte da verdade social não importa. São inconvenientes. Ponham-se na rua.

É preciso, sem dúvida, eliminar a infestação dos cupins da política, esses clubes de poder meia-bomba que se alugam aos maiores e cobram carguinhos. São uma praga. Não representam nada, salvo a falta de convicções e a ideologia do conchavo. São o fiel da balança do poder porque são infiéis a quaisquer valores que tenham simulado defender para obter votos incautos. São a apoteose das conveniências de ocasião. Pragas. É preciso encontrar um fumacê que os elimine, e ao qual sejam imunes os partidos que, à esquerda e à direita, queiram ter identidade, representatividade e povo. E que não se curvem às conveniências da hora.

Pobre palavra essa, conveniência. Ficou sendo a desculpa para as rasteiras e covardias, para as violências institucionais e a grande conchavação que a nossa política virou. É, no entanto, uma palavra bonita, de boa estirpe. Ouvindo-a na sua língua original, “cum-venire” significa “vir junto”, provir do mesmo lugar, ter a mesma origem. Os atos convenientes têm o mesmo berço dos atos verdadeiros. Na política nem sempre a verdade crua e limpa funciona bem. A política tem seus cantos de sombra. Atos de conveniência serão então aqueles que, em paralelo à verdade, sem traí-la, a tornam palatável em conjunturas que, pela sua diversidade, precisam de tratamentos diversificados, convenientes às suas realidades específicas. Sem trair a verdade, nem pisotear a representação e a política. É bom que seja assim. A conveniência torna a verdade possível quando há interesses legítimos em jogo, e a pureza ingênua da verdade não teria o que fazer.

Aqui, não. A conveniência é mercadoria de ocasião. Se servir, pega-se. Sem vergonha. A verdade não é chamada ao jogo. É coisa de amador. Não convém a profissionais. Ela tende a estar, quando consegue brecha, nos pequenos partidos que insistem em ter programas. E que se conspira para que não passem, por uma questão de números. Números terão poder de barrar a vontade de verdade. Seria bom ter partidos dando a cara a tapa pelos seus valores. Mas, parece, não passarão. Números, números.

Ando pensando em propor o PSV, Partido Socrático pela Verdade. Partido, porque ainda são eles as estruturas mais capazes de reunir condições de representatividade. Socrático, porque Sócrates não cedeu às más conveniências, que têm o nome “conchavo”. Pela Verdade porque é ela que falta. A verdade será programa. Vamos tomar uma surra da cláusula de desempenho. E no entanto, que desempenho soberbo teremos tido antes do corte da conveniência! Da barreira da conveniência. Barrar da política o gosto antigo da verdade vem sendo a pá de cal na política. Mas o sangue da verdade pode adubar a democracia. Aposto no sangue contra a cal. Está lançado o Partido Socrático pela Verdade. Seja o que Deus quiser e o povo desejar. Às vezes essas duas dimensões coincidem. Suspeito que nesse caso coincidirão.

 

Foto: Gustavo Stephan (O Globo)