Projeto História Filosofia Religião - Interfaces

Projeto coordenado pelo prof. Marcio Tavares d'Amaral e vinculado ao IDEA - Programa de Estudos Avançados/ECO-UFRJ

A corrida e a morte

Hoje foi só um tempo para a poesia. Porque o mundo escureceu

Publicado no jornal O Globo (10/06/2017)

As coisas andam tão sem beleza, minguadas de transcendência, desertas de verdade, que pensei mais uma vez na poesia. Um poema às vezes pode salvar. Drummond escreveu que tantas vezes, ferido “de tristeza e feroz desgosto de tudo” entrava no cinema — e eram duas horas que o redimiam da morte. E eu, quantas vezes, ferido de desencanto com todos os ventos do mundo, fui ler o poema de Drummond — e a vida retornou pelos olhos que leem para dentro e choram para fora. Sim, a grande poesia pode nos salvar da tristeza da vida. Escolhi o “Llanto por Ignacio Sánchez Mejias”.

Ignacio foi um grande toureiro espanhol do tempo da ditadura de Franco. Amava Federico García Lorca, que o amava. Lorca foi um imenso poeta espanhol do tempo da ditadura de Franco. Foi opositor ao regime sangrento, pelo qual se ensaiou, na península ibérica, o tipo de totalitarismo que pouco depois se instalaria em escala europeia, ameaçando o mundo: o nazismo alemão, o fascismo italiano. Esses países mandaram armas e apoio militar à guerra civil de Franco contra os republicanos que defendiam o poder recém-conquistado em Madri. Brigadas internacionais de todos os quadrantes ideológicos, civis idealistas, acorreram de todos os cantos do mundo para lutar ao lado dos republicanos. A União Soviética as apoiou com armas e ajuda militar. Um grande ensaio geral da guerra que se aproximava.

Lorca lutou pelos republicanos. E foi assassinado. Manuel Bandeira o cantou: “Espanha de Lorca, irmão/ assassinado em Granada./ Em vosso e em meu coração”. Lutou ao lado das brigadas internacionais. E amou Ignácio Sánchez Mejias. Um dia o viu morrer na arena. As corridas de toros, as touradas, são sempre terríveis. Contêm um elemento de crueldade. Mas os touros não são cordeiros de cabeça baixa na fila do matadouro. Às vezes levantam os cornos, e ouvem o bramido dos “touros celestes/ senhores da pálida névoa”. Às vezes as corridas acabam na morte do homem, o desafiador. Ignacio Sánchez Mejias foi colhido por um “toro de Guisando/ casi muerte y casi piedra”. Um touro de pedra e morte. E acabou na arena. Eram as cinco em ponto da tarde, disse Lorca. As cinco em sombra da tarde.

Vai Ignacio “com toda sua morte às costas./ Buscava o amanhecer/ e o amanhecer não era./ Busca seu perfil seguro/ e o sonho o desorienta./ Busca seu belo corpo/ e encontrou seu sangue aberto”. E ficou sobre a pedra Ignacio. O poeta que lhe tinha amor o contempla, vê que “a morte o cobriu de pálidos azuis/ e lhe pôs uma cabeça de obscuro minotauro”. A morte na arena fez do toureiro, touro. E já ninguém o reconheceu. Seu sangue percorreu a Espanha, viajou pelos montes e planícies, “como uma larga, escura, triste língua/ junto ao Guadalquivir das estrelas”. Junto ao rio que banha Sevilha, terra da última corrida. Um rio, agora, “para levar o corpo de Ignacio, e que se perca/ sem mais ouvir o ofegar dos touros”. Deviam cobrir-lhe o rosto? Escondê-lo da morte que levava, da morte que o levava? Não. Que ele dormisse, velasse, repousasse. Porque também morre o mar.

A corrida terminou. O touro vitorioso foi retirado da arena. Festejará sua vitória? Ninguém sabe o que aconteceu ao touro que matou Ignacio Sánchez Mejias. Dele sabemos. Ficou sangrando na arena. E devagar entrou no esquecimento. O público saiu, decepcionado com a morte do toureiro. Não tinha vindo para isso. Sentia-se, talvez, traído. O grande toureiro... E ficou o poeta, aturdido, contemplando “o branco muro da Espanha/ o touro negro de dor/ o sangue duro de Ignacio/ o rouxinol das suas veias”. E sabendo, porque assim se passam as coisas da vida, do amor e da morte, que logo seria esquecido. Que as figueiras, os cavalos, até as formigas da sua casa já não o conheceriam. Nem a tarde, nem o outono, quando viesse. Ninguém haveria de querer olhar seus olhos. Porque está morto para sempre, como todos os mortos da terra. Entrou no esquecimento. Foi levado pela morte. Mas o poeta o canta. “Seu perfil, e sua graça/ a madurez insigne do seu conhecimento”. Canta com palavras que choram entre as oliveiras, onde sopra uma brisa triste. O poeta o canta. A poesia e o amor resgatam aquele corpo da morte. De ser levado pelo rio ao grande mar.

Tem moral esta coluna? Deixamos Ignacio dado à morte e à poesia, aos grandes mistérios do amor e do tempo. À memória que preserva e ao esquecimento que apaga. O que faremos com o corpo “desse capitão atado pela morte”? Vamos transformá-lo em metáfora do nosso tempo desiludido de transcendência, em que a morte se desligou do amor, ficou cega e coberta de pústulas de ódio? Não. Vamos honrar a corrida e a morte. A dor do poeta “e o gosto da sua boca./ A tristeza que teve sua valente alegria”. Baixar a cabeça e sair devagar. Hoje não tem moral. Nem ensinamento. Hoje foi só um tempo para a poesia. Porque o mundo escureceu.

 

Foto: Gustavo Stephan (O Globo)