Projeto História Filosofia Religião - Interfaces

Projeto coordenado pelo prof. Marcio Tavares d'Amaral e vinculado ao IDEA - Programa de Estudos Avançados/ECO-UFRJ

As coisas ruins e as outras

A vida pequena pode ser mexida por nós. A grande vida, a da destruição do mundo, a da humilhação da vida, não.

*Leia no site dO Globo ou abaixo (22/04/2017)

Preciso dizer isso: as coisas andam muito ruins. É só vermos o jornal da noite e confirmamos no da manhã: todos os dias o mal do mundo se insinua por baixo das nossas portas e empanturra os nossos olhos à noite. Já ninguém suporta essa infindável guerra da Síria, na qual, excetuados os povos que sofrem, morrem, e fogem, e morrem, todos encarnam o Mal. Mal dos gases mortíferos, mal das bombas mortíferas, mal da destruição das cidades onde há pouco ferviam vidas. Haverá quem ainda ponha meio olho de esperança naquele centro do mundo que é o Oriente Médio, abarrotado de ódios e insensatez, ferocidade e desamor? E as horríveis pobrezas? Sem uma boca de túnel, um buraco de tatu, uma passagem apertada entre montanhas que levem para fora do sofrimento dos homens feridos pela ganância e pelo desejo de poder. As revoluções estão em suspenso. As esperanças estão congeladas. Não fosse politicamente incorreto, seria o caso de dizer: as coisas estão pretas. O tempo fechou.

Mas... Que coisas? Que tempo? O tempo de quem? Quantos de nós não vivem quase cotidianamente exemplos de solidariedade extrema? De honestidades inesperadas para quem espera sempre o pior? De atos desinteressados vindos de pessoas que fazem coisas simplesmente porque estão certas? Duvidam? É porque estamos tão seguros do grande Mal que não temos olhos para os pequenos bens. Pior que olhos: não temos mais sensibilidade para reconhecer os gestos comezinhos de bom caráter e boa vontade. Tanto o mau caráter e a vontade má vão se tornando um paradigma incontornável para nós. O Mal é obscenamente visível. É público. Bombas enterradas nos campos de batalha que ainda há pouco eram trigais. Dessas que explodem sob os nossos pés. Vai o cidadão distraído, convencido de que passeia por ali, e pá!, sai o cidadão destruído, massa de carne e ossos e morte.

Mas ainda há jardins. Serão tão poucos que mais valha a pena dizer “oásis”? Quero crer que não. Ainda há motoristas de táxi que devolvem celulares perdidos. Perdi o meu segundo anteontem. Pela segunda vez o recebi de volta. É verdade que outro motorista me levou uma pasta com documentos importantes. Não sei o que imaginava encontrar numa pasta de professor. Não podemos ganhar todas. 2 x 1 no quesito táxi.

Mas há mais numerosos exemplos de solidariedades mais importantes. Entre pessoas pobres, sobretudo, quantas vezes assistimos à divisão do pouco? Alguém precisa muito. Alguém tem pouco, mas tem. E a coisa — comida, cobertor, remédio — muda carinhosamente de mãos. Exagero? Vão olhar um pouco além do umbigo dos seus bairros. Mas não só entre os pobres. Há pessoas, como se diz, “bem de vida” que compreendem que o que lhes sobra só em parte lhes pertence. E distribuem. Ah, dirá alguém, assim é fácil, estava sobrando. Fácil nada. O destino das sobras, quando é dinheiro, é a bolsa, não a vida.

Há gente que cumprimenta estranhos nos elevadores. Ridículo!, dirão os céticos da gentileza. Não, não é ridículo, é um pequeno choque de bem. Ia a pessoa para o trabalho, carregada de preocupações e alguém lhe dá um sorridente bom-dia. As preocupações não desaparecem, mas uma luzinha brilha de repente entre elas. A pessoa responde um bom-dia às vezes protocolar. Mas saiu do mutismo de um mundo saturado para dentro. Por um segundo. Valeu o quê? Um segundo. Nem por isso recomendo que quem tenha o hábito gentil do cumprimento a estranhos o aposente. Um segundo pode virar o jogo. Quem assistiu a Barcelona x Paris Saint-Germain sabe.

Há os que saem catando o que os outros jogaram fora, não para usar os restos das comidas (há esses também, mas aí é o Mal que introduz seu dedo podre), mas para reciclar. Estão preocupados com o planeta e as próximas gerações. “Bichos-grilo”, dirão os sujadores da Terra. Nem por isso se farão campanhas para extinguir os grilos. Eles que insistam na sua solidariedade verdinha. Quem sabe aprendemos?

Um dia entreguei à caseira umas roupas que já não me serviam na barriga para ela dar aos pobres. E aprendi uma: ela própria está longe de ser rica, e me corrigiu: dar aos outros. Fiquei envergonhado. Eu vivo escrevendo essas coisas, e ali derrapei feio. Mas também feliz: aprendi um modo mais generoso de me referir a quem é desprovido dos bens da vida.

Confesso que ando um pouco cansado da conversa da “eficácia do pequeno gesto”. De que do micro atingiremos o macro. O macro é muito poderoso, mais do que nunca na História desse planeta. Está bem. Não faremos uma revolução do pequeno. Mas, aqui onde vivemos, podemos viver melhor. Em paz e solidariamente, se apenas prestarmos atenção a quanto é fácil. A vida pequena pode ser mexida por nós. A grande vida, a da destruição do mundo, a da humilhação da vida, não. A grande esperança vai ficar um tempo na reserva. Esperemos que não demais.

 

Foto: Gustavo Stephan (O Globo)