Projeto História Filosofia Religião - Interfaces

Projeto coordenado pelo prof. Marcio Tavares d'Amaral e vinculado ao IDEA - Programa de Estudos Avançados/ECO-UFRJ

Advento de quê?

O Advento é o nascimento de Deus entre nós

* Leia no site dO Globo ou abaixo (03/12/2016)

Amanhã é, pelo calendário litúrgico das igrejas cristãs, o segundo domingo do Advento. Parece, dito assim, coisa de religião. E é. Mas, como qualquer outra coisa, das menores como as pulgas às maiores como Deus, deixa-se pensar. Porque pensar é uma das grandes distinções humanas. Não a única, como desejariam os manipuladores de algoritmos. Mas é das grandes, como rir e amar. Perguntar sobre tudo é a primeira manifestação da inteligência infantil. É também como nós, adultos, exercemos as nossas mais sérias inquietações. Inventamos até, para elas, a filosofia, titular da pergunta “o que é isto?”. Anda bastante fraquinha, a filosofia, nestes tempos de pós-verdade. Mas ainda não há, no politicamente correto da cultura globalizada, quem nos impeça de perguntar, se desejarmos: “O que é Advento?”

“Advento”, sabemos, é chegada. Do latim advenire, significa “vir para cá”. Chegar junto. O começo das férias é um advento. A entrada da primavera. Até a morte é adventícia. Essa é, portanto, uma palavra perfeitamente banal. Sem transcendência. A transcendência entra quando se levanta a primeira letra como a flecha das catedrais: Advento, com maiúscula, é a chegada de Deus. É uma palavra sagrada para a tradição cristã. Um dia Deus decidiu entrar na História. Quis divinizar a Humanidade, e precisava, para isso, passar pelo ato trivial de nascer. O Advento é o nascimento de Deus entre nós. Como devia ser, pequenino como somos todos ao nascer. Escolheu vir como um menino. Uma estrela brilhou sobre ele. Foi velado por pastores e presenteado por reis. E até hoje não cessa de ser um espanto. Por isso nasce de novo todos os anos. Nós fixamos a data, porque gostamos dos aniversários. Determinamos a meia-noite do dia 24 de dezembro. O 25 foi seu primeiro dia claro. Era também a festa do Sol Invicto para os romanos. Pode ter sido um bom motivo para a nossa escolha. Com o tempo, a Véspera e o Dia se naturalizaram. Não dispomos de certidão de nascimento, que não seria mesmo expedida num estábulo de Belém. Mas estamos bem com a ideia de que na noite de 24 de dezembro Deus nasceu. Esse é o Advento. Não há outro maior.

Dito assim, logo se vê: trata-se aqui de uma questão de fé. Quem não é cristão não tem por que comemorar esse nascimento, o Natal. Quem se embala em outra maneira de estar perto de Deus também não. Quem não tem fé alguma, menos ainda. Salvo o comércio, que não precisa de fé para festejar. E no entanto essa data é um poderoso atrator do calendário. O ano corre pelos meses e vem terminar no Natal. Dizemos: acabou o ano. Ele ainda se espreguiça por uma semana e dá o pinote para o seguinte, quando os números mudam no calendário. Também se festeja essa passagem. Também é um advento. Mas o Advento, assim, maiúsculo e especial, é o outro. É o do Natal. Porque, talvez, não seja apenas uma questão de fé. Quem crê que Deus entrou na História, viveu como homem, morreu como homem e também não morreu, porque Deus não morre — ressuscitou —, nesse dia se recolhe ao Mistério. Um tremendo. E, desconfio, quem não crê ainda assim sente que algo se passa no mundo que o resgata de ser a coisa banal que se mede pelos relógios, as réguas e as eficácias. O mundo banal, desencantado, pode incomodar também os que não creem. Por que esses não teriam direito à pergunta “que sentido tem ser o mundo assim”? E, não importando a resposta, política, científica, artística que os satisfizesse, teriam passado, ao perguntar, perto do que não é banal. Encostado no extra-ordinário. Não é preciso experimentar o que dá sentido ao mundo e à vida pela fé. Há outros modos. Há, por exemplo, o amor.

O amor também é um mistério. Vamos nós bem distraídos num dia comum da vida, e de repente, sem cálculo nem aviso prévio, desaba sobre nós o amor. Não veio como o resultado de um raciocínio especialmente bem finalizado. Nem como o produto bem resolvido de uma vontade resoluta. Veio sem causa. De graça. Mas nós o reconhecemos. Sabemos que é o amor, quando o amor nos acontece. Esse é exatamente o sentido do que, na experiência religiosa, se diz na palavra “graça”: algo inesperado aconteceu, e mudou tudo, botou a vida de pernas para o ar, transformou e encantou o mundo. A fé é assim: vem de graça. É uma Graça. O amor também. É o que vem de graça, subitamente, no imprevisto de um dia normal, que dá sentido. O resto é repetição. O que faz diferença vem sem custo. Advento gratuito. Fé, amor, cada pessoa saberá. E será outra pessoa depois.

O Advento tem esse prestígio. Assinala, para os famintos de sentido que nós somos, que de repente algo pode relampejar e interromper o banal. E a vida toda muda depois. E então, crendo ou não no menino-deus, nós sabemos, com uma certeza que nos atravessa inteiros, que aquele momento foi Natal.

Foto: Gustavo Stephan (O Globo)