Projeto História Filosofia Religião - Interfaces

Projeto coordenado pelo prof. Marcio Tavares d'Amaral e vinculado ao IDEA - Programa de Estudos Avançados/ECO-UFRJ

Conversões

São Paulo fez em si o metabolismo do divino. Ganhou uma vida que não tinha

* Leia no site dO Globo ou abaixo.

São Paulo é reconhecido como o fundador do Cristianismo. Cristo não era cristão, era judeu. E não se converteu ao Cristianismo. Não cairia bem ao Filho de Deus. Deus dispensa, para si, religião. São Paulo, portanto. Suas cartas às comunidades cristãs deram os fundamentos teológicos, místicos e práticos da religião nascente. As Epístolas são a primeira Constituição da igreja cristã. Mas podia ter sido radicalmente o contrário: antes de ser o santo que foi, Paulo foi um ferrenho perseguidor de cristãos.

Há quem diga que esteve presente na execução do primeiro mártir, Santo Estêvão, em Jerusalém. Era judeu e romano. Os cristãos estavam “do outro lado”. Persegui-los pode ter parecido, a quem não tivesse o coração acariciado pela brisa leve de Deus, uma obrigação. Paulo de Tarso naquela altura não conhecia a brisa leve de Deus.

Paulo, Saul, nasceu em Tarshish, Tarsus, capital da província romana da Cilícia, hoje o sul da Turquia. Cidadão romano, portanto. Mas judeu de origem. Foi educado na religião judaica, na escola do grande mestre Gamaliel, em Jerusalém. Já tivera uma formação grega em Tarso, antes de migrar para a terra dos seus antepassados. Grego e judeu pela cultura, cidadão romano, Paulo certamente não entendeu Jesus. Não o reconheceu como o Messias, Christos. Como poderia? Era uma ideia extraordinária. O Filho de Deus! Tão logo chegou à idade de ser soldado, participou da repressão a essa seita estranha. Os praticantes da nova religião não se chamavam “cristãos” na Judeia. Esse nome lhes foi dado pela primeira vez na Síria. E Paulo se pôs a caminho de Damasco. No caminho de Damasco tudo mudou. Para sempre.

Ia Paulo para a Síria e a Luz o cegou. De repente, vinda de nada, brilhou à frente dele, intensa. Derrubou-o do cavalo. E o deixou cego. A Luz passou para dentro. O mundo de fora desapareceu. Uma enorme doçura o envolveu na escuridão. Precisou das trevas, que passaram a borracha no mundo que tinha sido seu, para que visse o extraordinário. Paulo viu Jesus. Reconheceu-o, sem nunca o ter conhecido. E tornou-se um dos apóstolos, sem ter sido um dos chamados. São Paulo Apóstolo. É como o conhecemos. Chegou a Damasco cego. Quando recuperou a luz dos olhos que perdera diante da Luz de Cristo, era cristão. Estava convertido.

“Conversão” é uma palavra que acabou por se tornar suspeita. Tirar as pessoas das suas crenças e costumes antigos e trazê-las para a “verdade”... Revirar as convicções familiares dos gentios, os pagãos, que adoravam vários deuses, e não tinham o conhecimento de Deus... A “conversão” dos judeus na Península Ibérica, a invenção dos cristãos novos que nessa qualidade podiam escapar da Inquisição... Mas há, como para tudo que é verdadeiramente importante, conversões e conversões. São Paulo verteu sua alma junto com o Espírito de Deus. Verteu com. A palavra grega é metabolé. Deu “metabolismo”. É um processo interno. Alimenta a vida. São Paulo fez em si o metabolismo do divino. Ganhou uma vida que não tinha. A partir dessa boa conversão, tudo mudou. Pensou, escreveu, lutou e amou de dentro do metabolismo de Deus. Lutou o bom combate. E não perdeu a fé. Foi ele que o disse assim. E há nesse dizer grande beleza.

A que distância estamos nesse nosso tempo da boa conversão! A luz da estrada de Damasco ainda se mantém, em brasas vivas. Mas a estrada de Damasco é uma colina de cadáveres. A Síria toda é um cemitério de insepultos. Uma terra arada pelas bombas, que dá frutos de terror e medo. De onde fogem, desapropriadas de toda esperança, as gentes tristes que se jogam nos barcos e naufragam no mar ou na indiferença. O governo ditatorial, seus opositores que também não carregam a democracia nos seus alforges de morte, o pavoroso autointitulado Estado Islâmico, que crê poder converter pelas decapitações televisionadas, o fogo do céu lançado pela coalisão ocidental e pela Rússia. É assim que hoje se quer converter uma região ao Bem. Extirpando o Mal à força de convicções em que ensombrecem interesses maus. O metabolismo daquela triste região do Oriente Médio produz veneno. Assimila tudo que há de tóxico no ar. Não transfigura a vida. Degrada-a. Condena-a à morte. E a executa, com uma naturalidade e certeza de estontear.

São Paulo matou cristãos. Não os converteu. Extirpou-os. Terrível. Mas depois converteu-se por dentro, obteve para si uma Luz que nunca morre. Queimado nela foi para Atenas, pregou no Areópago. Rezou diante do altar do deus desconhecido que lá encontrou, e sentiu que era o mesmo que o derrubara na estrada de Damasco. Foi preso mais de uma vez por causa da sua fé. Mas não impôs nada. Criou comunidades amorosas e escreveu cartas. E deixou o resto aos cuidados do Espírito.

Foi morto em 64, em Roma, por ordem de Nero. Foi sua última conversão. Verteu-se na eternidade de Deus.

Foto: Gustavo Stephan (O Globo)