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Projeto coordenado pelo prof. Marcio Tavares d'Amaral e vinculado ao IDEA - Programa de Estudos Avançados/ECO-UFRJ

Selecionando filósofos

A vida vale mais do que a filosofia. Inverter as prioridades é mortal (27/02/2016)

* Leia no site dO Globo ou abaixo.

Claro, todos são bem-vindos às nossas vidas. Mas justamente: às nossas vidas. Este pode ser um critério para escolhermos os filósofos que nos farão companhia. Santo Tomás viu os anjos. Sócrates foi condenado ao veneno de Atenas. Nietzsche morreu louco. Heráclito, tão solar, foi chamado “O obscuro”. Em comum tiveram o desapreço por sistemas fechados, aprisionadores da vida. A vida vale mais do que a filosofia. Inverter as prioridades é mortal.

Com este critério escolho o meu time. Deixo de fora imensíssimos filósofos. Escolher é perder. Às vezes a injustiça é necessária. E meu time vai com Heráclito, Sócrates/Platão, Aristóteles, Santo Agostinho, Santo Tomás, Nietzsche, Foucault e Heidegger. Aristóteles e Santo Tomás construíram sistemas, é verdade. Mas um procurava o caminho para a felicidade. E o outro escreveu como quem reza, de joelhos, para a maior glória de Deus. Podem entrar.

Para nós, neste momento de virada de todos os modelos de ser, fazer, pensar e dizer, o “espírito de sistema” é mortal. Põe a filosofia longe da vida. Um sistema tem axiomas e lógicas que sufocam a leveza da vida. A vida não cabe neles. Vaza pelas costuras. Quer potência mais do que regulamentação. Precisa da filosofia para ousar o extraordinário. Não ficar triste. O olhar dos sistemas fechados é baço, sem brilho. A liberdade não o habita.

Por que digo essas coisas? Tudo tão técnico... Não é, já vamos ver. Digo porque estamos hoje numa situação excepcional, entre o espantoso e o ridículo. Nas duas últimas décadas do século passado o chamado pensamento pós-moderno ensinou que a realidade “real” perdeu credibilidade — a realidade virtual é muito mais interessante. E que coisas como fundamentos do real, verdade, sujeitos usando suas consciências para representarem para si a realidade e procurarem nessa representação a verdade, tudo isso caducou. Tornou-se inútil e um pouco bobo. E junto com a realidade nua e sua verdade devem ir também as ideologias e o pensamento crítico. Tudo que cheire a raízes, a profundidades, perdeu o sentido. A questão do Sentido, que moveu céus e terras por mais de 20 séculos, se encerrou. Francamente, me parece demais. Demais tudo, sobretudo arrogante demais. Não pode ser assim, um decreto soberano, sem conversa, diálogo nenhum.

Mas os pós-modernos não podem conversar. Se por descuido aceitarem discutir suas premissas precisam aceitar que têm premissas, que elaboraram um sistema, que precisam passar pela prova da verdade. E aí já perderam. Blefaram e perderam. Tinham uma mão ruim.

Mas pode um tipo qualquer de pensamento se recusar a dar provas de si? A se pôr no pelourinho da contradição? Pode. Os sistemas fechados podem. Tudo que não cabe dentro deles é como se não existisse. Não de verdade. O que estou dizendo, e parecerá loucura a quem lida com essas coisas áridas por profissão, é que o pensamento pós-moderno é atravessado de ponta a ponta por uma imensa vontade de fazer sistema. Não deixa essa vontade aparecer. Nem monta seus sistemas à luz do dia. Mas sua estratégia, creio que consciente, é fazer calar os “superados”, os “sobreviventes”. Nós, que avançamos gemendo, como lindamente escreveu Pascal. Os amantes da verdade. Todos condenados ao silêncio. O sistema fechado do pensamento pós-moderno é tão astuto que não precisa aparecer como sistema, disciplina da vida. Mas tem a pretensão de ser o pensamento único do mundo globalizado. Usa como se fosse óbvia a lei da eficácia, da funcionalidade, do dar-certo como critério para a vida. Um sistema oculto. Melhor: invisível. E tão poderoso que nesta última década e meia nem precisou se exercer como discurso. Todo mundo já o aceitou. Vivemos segundo suas determinações.

Só que não. Ainda estão aí Heráclito, para ensinar a tensão dos contrários. Sócrates para morrer pela verdade, e Platão para pensar esse destino. Aristóteles para procurar o bem supremo da felicidade. Santo Agostinho para confessar a vida, e pensar enquanto confessa e vive. Santo Tomás, para ver a escada dos anjos descendo de Deus aos homens pequeninos. Nietzsche para delirar de tanta paixão pela vida. Heidegger para passar em revista dois mil e seiscentos anos de História e tentar iluminar um caminho por vir. E Foucault para fazer explodir a história dos sistemas de verdade e procurar a verdade na vida. E morrer disso. Esses ainda estão aí. São nossas companhias. Podemos escolher.

Só não temos o direito de preferir a tristeza da verdade morta. Bilhões de pessoas vivem fora da vida. Nós temos a oportunidade de ainda lutar por ela. Podemos não, é claro. Mas vinte e seis séculos vão estar nos olhando. De olhos atentos para as nossas vidas. Este espacinho dos sábados é para convidar quem quiser vir a se expor a esse olhar. Tem brilho nele. É vivo. Não morreu.

Foto: Gustavo Stephan (O Globo)