Projeto História Filosofia Religião - Interfaces

Projeto coordenado pelo prof. Marcio Tavares d'Amaral e vinculado ao IDEA - Programa de Estudos Avançados/ECO-UFRJ

Os destruidores da Terra

Um cientista humanista! É um começo de diálogo maior do que podia esperar (06/02/2016)

* Leia no site dO Globo ou abaixo.

“Os cientistas precisam olhar para nós. E serem atingidos pela nossa fragilidade diretamente no coração.” Foi essa a esperança da minha última coluna. Mario Novello, nosso maior cosmólogo, pesquisador emérito do CBPF, respondeu. Um cientista humanista! É um começo de diálogo maior do que podia esperar. O título é dele. A reação foi essa:

“Acabou a duração? O tempo foi embora? Assim podem querer os físicos, amarrados a pesados conceitos da Terra. Mas não é o que o universo que se estende à nossa volta ensina. Sim, esperávamos pela ciência. Mas aguardamos Godot.

“No despertar do modo científico, Brahe, Kepler, Newton e outros caminhavam como sonâmbulos, assim Koestler os nomeou. Descobrindo conexões ou inventando-as no escuro, tateando. Esse caminho tradicional, histórico, tortuoso, tatibitate, no qual reconhecemos o procedimento humano, verdadeiramente humano, conduziu a algumas certezas sobre o mundo. A partir delas foi oferecida uma visão científica do mundo travestida de versão oficial da realidade. Esse saber sem consequências, ou melhor, sem objetivo aparente, esse sentimento grandioso de projetar a configuração do universo, que beirava o êxtase religioso, permanece atual? Existe ainda algum resquício de maravilhamento, mesmo que escondido, latente?

“Nos últimos séculos, o sucesso da ciência levou à sua perdição. Diluiu-se o encantamento cósmico que ela herdara daqueles pais fundadores do caminhar da ciência, graças à sua subserviência ao capitalismo globalizante. Ao renegar suas origens metafísicas, colocou seu saber a serviço da técnica e abdicou de sua função mais nobre: produzir uma visão de mundo centrada no homem, não no ‘sistema’. Esqueceu a máxima que garantia que fora do homem não há salvação e se deixou seduzir pelo sucesso imediato que sua competência técnica produz como serviçais do Estado.

“Ao longo do século XX, a Cosmologia permitiu o renascimento da esperança de que a ciência não abandonaria sua função maior e permitiria sonhar novamente com o simples conhecer o universo. Começamos essa caminhada produzindo um mito científico de criação insignificante, menor, reducionista — o Big Bang —, relegando a grandiosidade do cosmos a detalhes dependentes de uma física terrestre. Arrogantemente, deixou-se levar pela ideia simplista de que o universo é o quintal da Terra e que a física terrestre pode ser extrapolada sem alterações maiores para a descrição completa do universo.

“O sistema capitalista altamente desenvolvido e global que nos é imposto neste século, o modo pelo qual se organiza o conhecimento científico hoje, as necessidades e funções para as quais ele está sendo orientado e sua falta de pudor na dependência das tecnologias associadas que opera um movimento destruidor em seu entorno apontam para o aparecimento de um outro caminho. É difícil precisar com rigor essa nova forma e o alcance de sua ação na geração de uma visão do mundo, pois essa estrutura está em formação, limitando-se ainda ao território dos símbolos. Esse movimento se realiza na prática contra o indivíduo, impondo àqueles que ousam resgatar os ideais dos astrônomos-sonâmbulos a pecha irônica de se travestirem com uma fantasia trágica, romântica, à sombra de um ideal perdido.

“A Cosmologia mostrou como é possível substituir no imaginário popular a religião pela ciência e em particular na questão mais fundamental, referente à origem de tudo-que-existe. Mas não devemos fabricar ilusões, nem ser substitutos da religião. A ciência tem o papel de produzir questões sobre o mundo. Tentar descrevê-las segundo o método racional e procurar alternativas de soluções, sabendo que não podemos obter a resposta completa de nenhuma delas, exceto de questões menores, que não permitem gerar uma visão-de-mundo, a não ser que nos contentemos com migalhas da razão desperdiçadas pelo método científico.

“No entanto, uma certeza sobrevive: o Universo é um processo dinâmico, e o tempo é sua grande e incontornável variável fundamental.

“Há ainda esperança?, pergunta Marcio com sua alma grandiosa. E, como estamos próximos demais do sofrimento de Sísifo, eu repetiria Camus e diria que sim. E, com a mente livre, sou levado a imaginar que minha idade avançada e a grandeza de minha alma permitem esperar que possamos reverter essa situação e reencontrar o espírito grandioso dos primeiros sonâmbulos dos céus e que possamos impedir que nos retirem, a nós, humanos, aquele ponto maior de contato com o Universo: o tempo”.

Então temos os poetas, os filósofos e os místicos que sofrem violência. E um grande cientista que luta pelo retorno ao homem. Todas as peças estão colocadas. É uma guerra? Vamos nos torcer entre Bem e Mal? — Tenebrosa questão! Bem e Mal... Nada óbvio. Precisamos ainda falar sobre isso. Sábado que vem. E poderemos começar.

Foto: Gustavo Stephan (O Globo)