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Projeto coordenado pelo prof. Marcio Tavares d'Amaral e vinculado ao IDEA - Programa de Estudos Avançados/ECO-UFRJ

O que Beda tem a nos dizer

A sociedade da eficácia e do hiperconsumo, que já existe, pôs no deserto a verdade, cuja procura, por séculos fez a nossa grandeza (18/07/2015)

* Leia no site dO Globo ou abaixo.

Beda, o Venerável, foi um erudito do século VIII. Acumulou com comovedora paciência tudo que fora sabido nos oito séculos que já durava a cultura greco-judaico-romano-cristã. No século VIII tudo de fundamental parecia já posto de pé. E petrificado. Beda, o Venerável, recolheu humildemente as memórias do passado, e guardou. Tinha talvez esperança no tempo. Alguém, um dia, podia lançar mão daquelas coisas pensadas e sonhadas no passado e fazer outras, diferentes. Vivas. Beda, o Venerável, não sabia, mas sonhava com o futuro.

As migrações germânicas arrasavam o Ocidente cristão. (Está proibido dizer “as tribos bárbaras”.) Sem referências gregas, judaico-cristãs ou romanas, levavam de cambulhada tudo que oito séculos de meditação e escrita tinham posto de pé. O Ocidente entrou na noite. Já só se repetia Santo Agostinho, um enorme modelo — mas repetir não é bom. Não empurra para frente, não rompe o futuro grávido do novo. Tudo ruía. Assim pensaram os melhores espíritos da época. Uns se desesperavam. Outros entesouravam o passado com paciência e amor. Nunca agradeceremos suficientemente a esses eruditos sem força mais de criação, mas cheios de respeito pelo que havia sido grande e estava a ponto de morrer. Quando houve condições, os monges da Irlanda e da Inglaterra desceram para recristianizar, reocidentalizar a Europa. E estava tudo lá. Em estado de enciclopédia. Seco e sem voz. Mas bastou um ar fresco e reviveu.

Ser essencialmente conservador não é uma coisa boa. Os conservadores de coração e mente acreditam que tudo de grande está no passado, e deve ser reverenciado e repetido. Não acreditam nas forças oxigenadoras do futuro. Temem as novidades, que deformam as figuras congeladas do que já passou. Sentem-se mal debaixo do sol. Beda, o Venerável, não era um conservador de coração e mente. Ele não podia fazer outra coisa. Esvaziado de seiva — a Europa estava secando —, precisava guardar. Porque as coisas que tinham sido grandes mereciam reflorir. Tinham vocação de futuro. Quem tem amor ao futuro em geral planta flores. Mas quando a terra secou, o que resta é conservar as sementes. Beda, o Venerável, foi um guardador de sementes. Vivas, mas sem flor. Germinariam. O tempo veio, dois séculos depois, e floresceram. Nós descendemos dessa floração.

Agora parece que estamos de novo entrando numa época em que o tempo está em risco de se imobilizar. Mas ao contrário. No Ocidente há quem nos diga que a História acabou. O passado foi o que foi, encerrou-se. O futuro será uma repetição mais sofisticada do presente. Flores novas não virão mais. A sociedade da eficácia e do hiperconsumo, que já existe, pôs no deserto a verdade, cuja procura, por séculos, fez a nossa grandeza. No Oriente quebram-se as grandes estátuas dos deuses, saqueiam-se museus, reduzem-se a frangalhos os testemunhos de um tempo grande, que ainda está vivo. Os novos bárbaros (vou usar a palavra, ela foi feita para essa hora!) não querem a permanência do passado no presente, garantia de um futuro germinado sem controle em terra boa. Querem um futuro sem passado. Feito a partir de hoje, com os ódios e as incompreensões de hoje. Um poder ilimitado, soberania sobre uma boa parte oriental do mundo. De modos diferentes, num lado e no outro, o desamor do passado arrasa o presente e ameaça o tempo ainda por vir.

Diante disso, preservar e restaurar são atitudes nobres. E inteligentes. A esperança de sol é toda alimentada da memória de outros sóis que já brilharam. Outros ainda brilharão. Quando nos dizem que o último já se pôs, esses cultores da noite nos retiram a esperança. Contra eles, conservamos, fecundamos o presente e construímos um futuro diferente da repetição escura. Nós, filósofos, cientistas, artistas, tecnólogos das coisas novas procuramos a história que continua. Contamos com nossas universidades, bibliotecas, laboratórios, ateliês. Temos o ar fresco e a rua, onde a vida fervilha de novidade. São nossas fortalezas, nossas casas. Viver nelas é essencial ao cultivo da esperança.

Aí as tesouras da “austeridade” cortam nossas asas e nossos pés. A Pátria Educadora acaba de reduzir brutalmente os recursos para a pesquisa e a inovação tecnológica, e o ensino e a experimentação na literatura e nas artes nas nossas universidades. Viveremos de novo tempos trevosos? O esgarçamento de toneladas de informações adquiridas, de repente esterilizadas por falta de condições de uso? Ensombreceremos nas lamúrias derrotadas? — Depende de nós. Manter nossas posições é possível. Lutar pelo futuro, não desistir de escrever, criar, pesquisar. As tesouras perdem seu fio. Enquanto isso, vamos protegendo o que já temos nas mãos. Como Beda, o Venerável, que teve esperança num novo sol. Que veio. E encontrou o campo à espera, cada coisa em seu lugar.

 

Foto: Gustavo Stephan (O Globo)