Projeto História Filosofia Religião - Interfaces

Projeto coordenado pelo prof. Marcio Tavares d'Amaral e vinculado ao IDEA - Programa de Estudos Avançados/ECO-UFRJ

O bóson de Higgs

Em linguagem filosófica, que nessa hora devia pedir licença discreta e se calar: uma coisa não precisa existir para ser (27/06/2015)

* Leia no site dO Globo ou abaixo.

A tensão no Centro Europeu de Pesquisa Nuclear, o Cern, era física no dia do grande experimento. Palpável, de cortar com faca. O que ia se passar ali simplesmente nos permitiria saber se o nosso universo, a casa comum, é hiper-simétrico ou não. Se pode ser conhecido e vivido segundo boas previsões ou se é um mundo “fora da lei”, multiversos desordenados. Ia-se procurar o bóson de Higgs. Se ele aparecesse seria o fim de uma busca de 40 anos.

Higgs, velhinho, estava presente. Desde 1964 ele previra a existência dessa partícula, núcleo mais radicalmente elementar de todo o universo. Tão radical que foi chamado “a partícula de Deus”.

A hipótese era teórica. Nunca ninguém pusera os olhos nesse Santo Graal da cosmologia. Entre os físicos teóricos e os experimentalistas corriam rivalidades e ironias. Se o experimento funcionasse, quem teria descoberto “realmente” o bóson de Higgs? Até a equipe de gravação estava nervosa e tensa. O experimento seria filmado ao vivo! O que aparecesse nas imagens seria a verdade. Uma ata imagética de acontecimentos reais. E virtuais. Virtuais e reais...

O experimento seria inequivocamente real. Partículas reais postas em circulação no acelerador, tão grande que sua circunferência passa pela da fronteira da França com a Suíça. A intensidade do seu giro seria progressivamente aumentada a uma velocidade próxima à da luz. Um galope vertiginoso de mili-micro partículas destinadas à colisão. E quando o choque se produzisse, a análise permitiria “ver” o bóson. Se aparecesse em certa medida, super-simetria. Se em outra, caos. Eram as duas hipóteses de interpretação do universo em jogo, em torno de um modelo-padrão ao qual só faltava a partícula de Deus para estar completo. Muito simplificadamente, isso. Porém... Porém, exceto o Colisor de Hadrons, a velocidade e as partículas iniciais, tudo o mais era virtual. Porque os campos de Higgs, dos quais o bóson é o elemento mínimo, estão no universo inteiro. Não apareceriam ali “de verdade”. Sua detecção no imenso colisor seria um efeito de estatísticas à procura de uma probabilidade de 95%. Cálculos, registros nos computadores. Havia sido, com boa base científica, traçada uma linha: se o bóson aparecesse (por apreciação estatística) a 140 vezes a massa do próton, multiversos, caos; a 115 vezes essa massa, universo super-simétrico. Isso na hipótese, estatisticamente apreciada, de o bóson “ter passado”. Ninguém o veria. Ninguém vê de verdade o Santo Graal. Ele existe na sua busca. Tudo isso, a linha, o acima e o abaixo, era conta. Uma medida virtual, não “do universo”. Aquelas máquinas impressionantes não mediriam “de verdade”.

De verdade... Nada ali era falso. A agitação frenética das pessoas era totalmente real. As emoções e esperanças, realíssimas. Cientistas penduravam suas próprias vidas reais no resultado do que iria se passar ali em alguns momentos. Os teóricos não estavam no experimento; roíam as unhas no campus de Princeton. O território era dos experimentalistas, da sua exultação e temor. Tudo pronto. Problemas! Tudo adiado. Tensão subindo a níveis insuportáveis. De novo, tudo pronto. Dada a partida. As partículas começaram a girar na sua velocidade comum. Acelerando, acelerando, tornando-se vertiginosas e inobserváveis. Máquinas calculando. Na grande sala em que o experimento era “visto”, silêncio que só deve haver no mais alto do Everest. A linha lá, 115/140. Sim? Não?

Deu 125! Empate. Um universo talvez hiper-simétrico, talvez não. Tudo aberto de novo. Mas o bóson de Higgs, segundo todas as probabilidades, tinha passado. Higgs, velhinho, chorou. Quem participou de tudo chorou. Quem viu o documentário “Particle fever”, feito ali na hora, chorou. O bóson existe! Palmas, abraços, beijos, alívios. Toneladas de tensão se dissiparam na alegria. Alegria realíssima. Porque, de verdade, o bóson existe. Embora “de verdade” ninguém o tenha visto. Mas, virtualmente, esteve lá. Esteve mesmo lá. Escrevo esse “mesmo” com toda a convicção de quem, vivendo de alertar seus alunos, ouvintes e leitores para os perigos de permitirmos que nossas vidas comuns sejam tragadas pelo buraco negro da pura eficácia tecnológica, sem preocupação real com a verdade do mundo e da vida, viu o bóson de Higgs. Só a simulação virtual de um universo num colisor de hádrons poderia nos dar essa certeza gloriosa. Em linguagem filosófica, que nessa hora devia pedir licença discreta e se calar: uma coisa não precisa existir para ser. Ou o contrário, já pouco importa. Precisamos de outra linguagem, de uma nova experiência da verdade para dar conta dessas coisas indizíveis. As formas consagradas estão caducando. Nada de pânico, nenhum problema. Criamos tantas no passado, criaremos outras.

Porque o certo é que o bóson de Higgs existe. Ninguém o viu. Mas é verdade.

Foto: Gustavo Stephan (O Globo)